(por Ranieri Muricy Barreto)
Numa faixa empunhada por diversos manifestantes em São Paulo estava estampado: “meu partido é o meu país”. Tal inscrição levou-me a refletir sobre a forte rejeição aos partidos, notadamente de esquerda, nestas manifestações. Meses antes um aluno me perguntara sobre a diferença entre a esquerda e a direita; sem esperar tal questionamento e para não deixá-lo sem resposta, recorri a Bobbio (BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 1995).
Bobbio reafirma a divisão entre os partidos políticos e diferencia a esquerda da direita, salientando que é “de esquerda” quem defende o princípio da igualdade e, “de direita” aqueles que veem nas desigualdades um componente de naturalidade e, dessa forma, a sua extinção não seria possível.
Um observador mais atento nota facilmente a presença de grupos fascistas em meio a outros jovens que se organizam no facebook, compram cartolinas e pincéis e, “ingenuamente” andam ao lado da estrema direita fascista nas ruas. Ambos contribuíram para um amálgama que trouxe o apoio de pessoas comuns ao movimento. Que fazer? O povo está nas ruas, sobretudo animado pelo entusiasmo juvenil generalizado que não pode, em hipótese alguma, ser capturado por grupos fascistas, cujo objetivo é apequenar os avanços conseguidos até aqui, mesmo com o desequilíbrio de forças partidárias e pelo engajamento de diversos movimentos sociais organizados.
O interessante é que o movimento acontece no momento em que o Brasil ocupa posição de destaque no cenário internacional e, internamente, a economia tem possibilitado que as famílias disponham de mais conforto para a sua reprodução enquanto sujeito social. O projeto de democracia, ora em curso, tem elevado o aumento do poder de compra e as expectativas de quem produz e de quem vende, acelerando a circulação de mercadorias e dinheiro que alimenta o giro da economia. Sua continuidade permite o atendimento de novas demandas sociais, fruto do próprio desenvolvimento.
A responsabilidade dessa construção recai, dentre outros, sobre os ombros de uma legislatura, que vai até 2015, cujo perfil ainda não engloba igualmente todos os segmentos sociais. Portanto, o amadurecimento político da sociedade é necessário para o fortalecimento das bandeiras históricas levantadas pelos movimentos sociais organizados e a consolidação das instituições democráticas e, particularmente, equilibrar a correlação de força da câmara. Dos 513 deputados, 220 são ruralistas, 169 empresários, 61 sindicalistas e 63 evangélicos, a bancada feminina diminuiu de 47 para 43 deputadas e a de deputados negros passou de 12 para 22. Assim, faz-se necessário maior equilíbrio nesta representação nas eleições de 2014 para que possamos, como diria Milton Nascimento, “fazer deste lugar um bom país”.
O amadurecimento político experimentado pelo processo de redemocratização do país é aprofundado a partir do governo Lula, quando a população passa a discutir a repartição do orçamento governamental. Em outra perspectiva, acordou para ser depositário fiel das boas condutas na política, condenando a corrupção e exigindo a punição dos culpados. Mas não é só isso, é necessário avançar culturalmente para influir nas decisões que interferem na vida cotidiana para fortalecer a jovem democracia brasileira. Neste sentido, desconhecer a tarefa da esquerda e dos partidos, é negar a própria democracia que tem permitido a ascensão das classes D e E para a classe C e a redução das desigualdades sociais. Esta negação abrirá espaços para o retorno daqueles que, na acepção de Bobbio, entendem a desigualdade como fruto natural do desenvolvimento, portanto sem solução.
Voltando às manifestações de junho, percebe-se que um movimento dessa magnitude pode alterar a correlação de forças e, para os que são de esquerda, fica o alerta para que não se perca a chance de recuperar algumas justas bandeiras históricas expressas nas reivindicações dos setores populares – como a taxação das grandes fortunas – e impedir o retorno da política deletéria que predominou nas décadas perdidas de 80 e 90.

Ranieri, concordo com o seu texto. Entretanto, é preciso ter em mente que os avanços obtidos nos últimos 20 anos ainda são poucos e tornaram-se lentos no governo Dilma. Os movimentos ocorridos mostraram muito mais uma insatisfação com a conduta partidária do que uma perspectiva de fascimo. Usar esse discurso parece quererr desvalorizar a inteligência da população que foi às ruas num governo de esquerda. Nunca votei na direita, mas não me furto a refletir sobre o que tem feito o PT no governo. E agora com os rolezinhos? Seria tb fascista?
Um abraço e parabéns pelo artigo.
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Jair, obrigado pelo retorno!
Não me refiro a um presença hegemônica de grupos fascistas, apenas chamo a atenção, como tantos outros fizeram, da presença deles no movimento. Não creio que a espontaneidade “revolucionária” dos jovens sinalizasse para um discurso que tão interessa a grupos extremos, ou mesmo a grupos que têm interesse direto em desmoralizar a Política e, por isso mesmo o ataque direto aos partidos.
Claro que as mudanças vão acontecendo e a percepção de melhora vai ficando mais difícil, porque muitas vezes ocorre na margem, sem falar no fosso de políticas públicas que historicamente marcou o Brasil e que nos últimos doze anos foi demasiadamente atenuado. Concordo com você que ainda há muito que fazer!
Quanto aos rolezinhos me parece, sem aprofundamentos, que a questão é mais grave e explicita um verdadeiro choque de classes.
Grande abraço!
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Caro amigo Raniere, na infância e adolescência do PT combatíamos o Patriarcalismo, o Machismo, o Individualismo, a Concorrência e a Maximização do Lucro e/ou dos Interesses Individuais, Pretendíamos Superar a Sociedade Capitalista, Conquistar Paz, Amor e Equilíbrio para a Classe-que-vivia-do-trabalho, investíamos num Brasil com maior Segurança Pública e Qualidade de Vida para a toda a população e principalmente para a Juventude Afrodescendente. Como combater o atual “genocídio” que extermina cerca de 40.000 jovens entre 15 e 29 anos? Preciso de ajuda para divulgar o livro em que analiso como “O GRITO DAS RUAS E O EXERCÍCIO PARA UMA CIDADANIA ATIVA” deixou a Direita Assustada e a Esquerda Perplexa, o papel do Estado, da Juventude e dos Idosos (as) para Conquistar uma Cidadania Ativa. No livro de Coelho, foi analisado a fase Revolucionária e a Transformista do PT, demonstrando como o PT se transformou numa Esquerda para o Capital e numa Direita para o Social. Mas o PT ainda pode Lutar por Políticas Públicas que garanta Qualidade de Vida para os 2/3 da População brasileira mais pobre e beneficiar os mais Ricos que pagam o IRPF mais baixo do mundo. Lutemos pelas Reformas: Política; Tributária e da Lei Orgânica dos 5570 municípios, em que os Vereadores têm 3 meses de Férias ao ano, enquanto 2/3 dos brasileiros sequer tem uma ao ano. Tornar a Cidade, oa Bahia, o Brasil mais Humanizado e mais Solidário é o nosso objetivo. E-mail joaobronson@yahoo.com.br ou rochabronson13@gmail.com João Rocha Sobrinho.
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