A crise recente envolvendo as Havaianas foi lida, no debate público brasileiro, mais como um episódio de guerra cultural do que como um fenômeno econômico. E esse é justamente o erro central. Quando se observa a trajetória da empresa com as ferramentas corretas da economia política, fica evidente que o barulho ideológico produzido pela direita não explica nem a origem nem os desdobramentos da crise.
Os números mostram que os problemas da Alpargatas começaram antes do episódio que virou munição para o boicote político. Em 2023, a empresa acumulou prejuízo da ordem de R$ 1,8 bilhão e uma retração de 15,7% nas vendas globais. Trata-se de uma crise típica de reestruturação produtiva, posicionamento de marca e reorganização de cadeias globais de valor — e não de um colapso causado por memes, vídeos ou indignação digital.
A extrema-direita brasileira, ao reduzir tudo à lógica do “cancelamento”, ignora um dado fundamental do capitalismo contemporâneo: o mercado relevante das grandes marcas é internacional. Rankings globais de moda indicam que, em 2025, as Havaianas figuram como um dos produtos mais desejados do mundo, com crescimento de 34% nas buscas globais e expansão significativa em mercados fora do Brasil. O consumo não responde à gritaria doméstica, mas à dinâmica concreta da circulação de mercadorias em escala mundial.
O dado mais revelador vem do pós-crise: após o pico do boicote ideológico, as vendas internacionais da marca cresceram cerca de 20% no período subsequente, e o faturamento global acumulou alta superior a 80% em 12 meses. O capital não se move por ressentimento, mas por valorização.
Quem perde, portanto, não é a empresa. Quem perde é uma direita que troca análise materialista por moralismo raso, confundindo bolha digital com economia real. O mundo é maior que o WhatsApp político — e o capital sabe disso muito bem.

