A geopolítica do século XXI se redesenha diante dos olhos de um Brasil que tenta equilibrar pragmatismo e soberania. De um lado, a China consolida-se como o principal parceiro comercial do país, comprando soja, minério e petróleo e investindo em infraestrutura e tecnologia. De outro, os Estados Unidos seguem sendo uma potência militar e financeira incontornável, cuja influência ainda permeia organismos multilaterais, cadeias produtivas e setores estratégicos do Estado brasileiro.
O desafio é que, ao contrário da Guerra Fria, a disputa sino-americana não se dá por territórios, mas por controle de fluxos — de dados, energia, conhecimento e valor agregado. O Brasil, com seu peso ambiental e potencial industrial, pode ser pivô de uma nova diplomacia produtiva e sustentável, mas precisa escapar do papel de mero exportador de commodities. A relação com a China oferece oportunidades de industrialização verde e tecnológica, desde que o país saiba negociar transferência de tecnologia e não aceite o lugar subalterno na divisão internacional do trabalho. Já com os EUA, há espaço para cooperação em inovação e economia criativa, mas é preciso cuidado: a pressão por alinhamento geopolítico tende a reativar o velho dilema da dependência.
Entre Washington e Pequim, o Itamaraty deve reafirmar o Sul Global como espaço de construção autônoma — não como “terceira via” passiva, mas como bloco de países que ousa pensar o desenvolvimento fora do eixo dólar-yuan. O Brasil tem condições de ser mediador e protagonista, desde que compreenda que soberania, hoje, é também capacidade tecnológica e ambiental.
O futuro da diplomacia brasileira dependerá menos de escolher lados e mais de afirmar o seu próprio.

