(Publicado em 03/11/2014 no Jornal A Tarde, página A3)
Por Ranieri Muricy Barreto*
Os brasileiros que vivenciaram as décadas de 80 e 90, na condição de trabalhador, ou mesmo empresário, não tem dúvidas sobre o caráter maligno da inflação: os preços sobem de forma contínua e rápida porque não há, no curto prazo, como as empreses atenderem à procura de bens e serviços. O salário terminava antes do mês acabar.
Quando se generaliza o conceito de inflação como se fora sempre de demanda, ou seja, muitas pessoas com dinheiro à procura de poucos bens, o corte de consumo via aumento da taxa de juros pode ser indicado para resolver o problema. Mas, há que se considerar que existem vários tipos e causas de inflação. Esse diagnóstico explica muito pouco o problema atual, portanto inaugurar uma tendência de elevação da taxa básica de juros da economia, como sugerem alguns, seria um excesso de iniciativa.
O aumento dos juros é uma arma preventiva contra a inflação. Sabemos que fatores passageiros, como a seca, flutuações no preço do petróleo, p. ex., impactam os preços domésticos, aumentando a inflação. Com inflação controlada no limite superior da meta, não há razão para paralisar a economia com aumentos de juros, pois ampliaria as taxas de desemprego e reduziria a renda no momento em que o país mostra seu dinamismo ao resto do mundo.
A elevação da taxa de juros atuará negativamente sobre o aumento da produtividade do trabalho, da massa salarial, do consumo das famílias, dos investimentos, e, sobre a melhora das expectativas dos empresários.
Frear o crescimento da economia, faz-me lembrar um termo da medicina, pletora, que é utilizado no diagnóstico daquelas pessoas que, aparentemente estão muito bem, “coradas”, mas encontram-se doentes, com produção abundante de glóbulos vermelhos que se deparam com veias e artérias cada vez mais comprimidas, causando o que se chama de congestão. Ou seja, no Brasil, a renda melhora, aumenta a inclusão social, as famílias passam a consumir e estranhamente sugerem que isso é uma pletora, recomendando ao Banco Central aumentos nos juros. Perdão, não consigo enxergar isso.
* Ranieri Muricy Barreto é M.e em economista, Superintendente de planejamento estratégico do Estado da Bahia e professor da Ucsal.
