O que me levou a esse filme foi o nome de Ricardo Darin, apesar do elenco de alta qualidade. Aqui são expostos temas cotidianos do universo masculino contemporâneo, num misto de drama e comédia, que traduz as incertezas vividas por oito homens, na faixa dos 45 – 50 anos, em crise de identidade. Tais problemas colocados diante das mulheres desnudam esses homens que ficam completamente perdidos diante da forma como as mulheres encaram a visão masculina do problema.
Os personagens, e seus problemas cotidianos aparentemente banais, vão aparecendo de forma muito honesta em seis módulos que são articulados pelo cenário da locação. Inicia com dois amigos que se encontram casualmente, aparentemente, trazendo reminiscências de um tempo em que viam e experimentavam tudo. Um saindo do analista (Leonardo Sbaraglia) e o outro (Eduard Fernandez) desempregado, tentam externar o carinho do tempo em que eram moços. Ambos adoecidos pela aspereza imposta na vida cotidiana e nas escolhas das relações que fizeram. Apesar da idade, as drogas vendidas nas farmácias já estão presentes no dia a dia destes personagens.
Em seguida, um homem maduro (Javier Cámara) busca recuperar mulher e filho após uma pulada de cerca que lhe custou muito caro. Algo que ocorre com mais frequência do que se imagina, da forma como é apresentada nos remete há uma reflexão: o que de fato importa em uma relação duradoura diante da brevidade da vida? Ainda falando de traição, o personagem seguinte (Ricardo Darin) resolve tirar a prova dos nove, após ser posto na prateleira por sua companheira, e a segue até seu covil amoroso. Sombrio e abatido, conta seu drama para o primeiro que aparece num diálogo pra lá de interessante. Incrédulo diz: ela nunca soube mentir. Essa talvez seja a melhor de todas as histórias, levando o espectador a refletir sobre os relacionamentos duradouros nos dias atuais.
As duas histórias finais trazem o tema da afirmação masculina ante o mundo que os rodeia. Na primeira, um homem (Eduardo Noriega) casado e que nem de longe pensa em deixar a mulher, que espera um filho, se lança em busca de aventura com uma menina bastante cobiçada no seu trabalho travando um bom diálogo com desfecho muito cômico. A outra reúne todos em uma festa para onde se dirigem dois casais amigos. Ambos chegam, ao mesmo tempo com parceiros diferentes numa clara alusão a uma troca de casal. Mais uma vez o macho aparece como imbatível, escondendo suas fraquezas, com mentiras sinceras para esconder a incapacidade para lidar com seus próprios problemas.
Importante ressaltar que tudo isso é exposto com muita graça e por atores excelentes alguns que eu não conhecia. Achei que faltou interação entre os módulos e a aparição dos atores em seus quadros é meteórica, inclusive Ricardo Darin.
É muito engraçado ver homens maduros sem conseguir lidar com suas próprias escolhas, principalmente na relação com as mulheres. A lição que fica é que o macho só é macho mesmo nas rodinhas masculinas, rs. Tudo bem, talvez o diretor tenha tido a intenção de mostrar que o filme trata de homens cujas cabeças estão atordoadas e todos numa nau sem rumo mas, para os simples mortais masculinos, com cabeça no lugar, a lição é grande.
Vale pelas ironias e humor inteligentes, que embora não produza o riso fácil, às vezes nos leva a gargalhadas em algumas cenas aparentemente dramáticas (foi o meu caso). Também pela atuação dos atores, mas poderia caminhar para um final mas próximo do que é desenvolvido no longa.
Enfim, pelos problemas expostos é um filme para ser visto por homens e mulheres. Os homens porque verão que é preciso quebrar imposições sociais que lhes são impostas e, as mulheres para penetrarem mais no labirinto que é a cabeça masculina.
Título: O que os homens falam (Una pistol en cada mano) – Espanha, 2012 / 95 minutos Direção: Cesc Gay Roteiro: Cesc Gay, Tomàs Aragay Elenco: Javier Cámara, Ricardo Darín, Luis Tosar, Eduard Fernández, Cayetana Guillén Cuervo, Jordi Mollà, Eduardo Noriega, Candela Peña, Clara Segura, Leonor Watlling, Alberto San Juan, Leonardo SbaragliaComente.

