[Crítica] O Homem Duplicado (Enemy)

HOMEM-DUPLICADO-BANNER_site(Por Ranieri Muricy Barreto)

Acaba de entrar em cartaz o filme “O homem duplicado”, baseado na obra homônima de José Saramago. Vi esse filme, duas vezes, antes de ir para a telona. Por quê duas vezes? Simplesmente porque da primeira voei tal qual aquele leitor desavisado diante da primeira leitura de um parágrafo de Saramago. Cheguei a me lembrar dos filmes de arte que assistia há muitos anos na Biblioteca Central dos Barris. A razão para não entender pode ter sido desatenção mas, prefiro acreditar que não consegui captar a grandeza da direção de Villeneuve em traduzir a genialidade de Saramago para a tela. O tempo inteiro fiquei a  me perguntar coisas e as respostas não apareciam. Vale salientar que não li o livro.

O andamento do filme é lento mas agora me convenci que isso foi proposital. As pistas são deixadas a todo momento e são de difíceis percepção, só próximo do final percebi um fio condutor e este me fez assistir pela segunda vez e mudar de opinião. Até mais da metade do filme confesso que tive vontade de desistir, fui adiante menos pelo enredo e mais pelos truques usados pelo diretor com a câmera, numa técnica muito ímpar. Da segunda, descobri o enredo e valeu a pena, o filme ultrapassa o limite do que é exposto, logo não estava desatento!

A história mostra, desde o início, um professor de história meio atordoado, Adam Bell (Jack Gyllenhaal) e uma mãe pedindo, aparentemente sem sucesso, para retomarem contato. Uma frase logo martela sua mente: “caos é a ordem ainda não definida”. Como não consegui decifrar nada do filme “de primeira” tive que assistir a segunda.

A rotina do professor parace ser descrita nas aulas quando se refere ao padrão de reprodução das ditaduras afirmando que tais padões sempre se repetem. Parece ser essa a exata dimensão da vida de Adam, um dia atrás do outro, pura monotonia e isto o inquieta a ponto de buscar respostas cuja sociedade moderna não oferece. A descoberta de um sósia, ator de quinta categoria, em um filme com o título sugestivo para o momento que ele atravessa (Quando há vontade, dá-se um jeito) o perturba ainda mais.

Mesmo que você não capte a proposta do filme, há elementos para torturar seus pensamentos ante uma série de questões que são colocadas ao longo da fita, razão pela qual assistir duas vezes, uma atrás da outra. Adam vive numa sociedade moderna, cheia de conflitos, no trabalho, no casamento, na família, e, nesse tipo de sociedade, a tendência é soltar os bichos que existem dentro de cada um.

O encontro de dois homens maduros (Adam e Anthony, nome artístico do personagem Daniel Saint Claire), igualzinhos, inclusive a voz, em estágios de vida diferentes balança a cabeça de ambos que saem em busca de si mesmo. A partir daí ambos dão seus jeitos de tentar entender a situação e, o caráter de ambos vai sendo revelado. Um invade o lugar do outro, trocam de mulheres na tentativa de decifrar o que está acontecendo, buscam incessantemente matar os diabos que habitam suas cabeças.

O trabalho interpretativo do ator Jake Gyllenhaal (Adam/Anthony) é magistral, as tensões psicológicas que envolvem os personagens sósias os tornam muito diferentes. Em algumas cenas parece que estamos diante de dois atores diferentes, sem truque de maquiagem.

O trabalho do diretor canadense Denis Villeneuve, o mesmo de “Os Suspeitos” e “Incêndios” destaca-se pela opacidade das fotografias que se casam perfeitamente com as cabeças em conflito do filme, além de Adam e Anthony também as suas companheiras. Os enigmas a serem decifrados fica por conta de cada um, será que Adam e Anthony são pessoas diferentes? Ou, um único homem em constante conflito com a vida que leva? O mito de Aracne talvez ajude a responder essas perguntas com a diferença que, na minha opinião, Adam luta contra si mesmo. Enfim, um excelente caso para qualquer psicanalista.

Por falar em Aracne, cuidado senão as aranhas que aparecem no filme, em várias cenas, não te deixam responder! Fique de olho nelas que, ao invés disso elas podem te dar algumas pistas…

Eu gostei muito (mas precisei de uma segunda vez). Tente, caso não goste, o aviso foi dado!

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Título: O Homem Duplicado (Enemy) – Canadá/Espanha, 2013 / 90 minutos
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Jaciwe Gullón, baseado em romance de José Saramago
Elenco: Jack Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini.
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