[Crítica] Pelo malo (Cabelo ruim)

Pelo malo(Por Ranieri Muricy Barreto)

Mais um belo filme venezuelano que ataca questões sociais e a relação entre mãe e filho. Em uma Venezuela em crise, a vida de uma mulher e seu filho servem de mote para explicitar o preconceito de uma sociedade machista. No momento em que o país se prepara para eleições de president, senadores e deputados, temas polêmicos vem à baila e questões ligadas às mulheres, aos negros, casamento gay ganham fortes combústível. Esse filme ajuda fortemente nestas reflexões.

O filme começa com uma cena em que Marta (interpretada pela bela atriz Samantha Castilho), mãe solteira de dois meninos, faz faxina numa casa de classe média. O menino maior, Júnior, (interpretado magnificamente pelo ator mirim Samuel Lange Zambrano) a acompanha por não ter com quem deixá-lo. Ela pede para que a ajude na limpeza de uma banheira, ele não resiste, mergulha, viaja, flutua… e, com a leveza água, sente seus cabelos encaracolados como se lisos fossem e viaja…. O sonho é interrompido com a chegada da dona da casa que reclama com a mãe: “o menino está na minha Jacuzzi!. É um anúncio do que virá: preconcieito contra os negros, as mulheres, a pobreza e sobre a homossexualidade, motivo pelo qual a relação entre mãe e filho se deteriora.

Júnior, um garoto de nove anos de idade, sonha em ser um “cantante con el pelo liso”, vive em Caracas, num bairro pobre, suburbano, onde ouve tiros com frequência e crianças tem medo de estupro. O mundo a sua frente tem como cenário um prédio popular onde moram várias famílias miseráveis. Seu pai morre de forma violenta e sua mãe Marta, vigilante patrimonial de profissão, é uma mulher catatônica, obtusa, em busca de recolocação em um mercado de trabalho deteriorado. O emprego que consegue é para ganhar salário mínimo, sem carteira assinada e sem seguro de acidente de trabalho, ou seja, sem garantias e direitos elementares.

Sua relação com o filho é de distanciamento, embora haja amor entre eles, em que pese diálogos do tipo “eu não te amo.” “eu também tão pouco.”. Por ser uma mulher embrutecida, que vive num ambiente masculino, ela não suporta ver o excesso de delicadeza do menino que logo capta o sentimento da mãe. Essa percepção faz com que ele se distancie da avó Carmen (Nelly Ramos) que o estimula em seu desejo de ser cantor e promove até algumas sessões de ensaio, inclusive com alisamento de cabelo. O garoto ensaia com uma versão em castelhano, interpretada por Henry Stephen, da bela canção Meu limão, meu limoeiro de Carlos Imperial, muito conhecida na voz de Wilson Simonal.

Ao invés de frequenter a quadra de esportes com outras crianças, Júnior vive com sua amiga (Maria Emília Sulbarán), que sonha em ser miss mas vive num dilema por ser gordinha. Ambos vivem grande frustração por não ter 250 bolívares para tirar uma foto para a escola que está prestes a começar. Mas o desejo dele é tirar a foto de cantor com cabelo liso e o dela vestida de miss.

Sonhos de crianças desfeitos pela rudeza do dia a dia na pobreza. Um simples olhar a mãe não dispensa ao filho que clama por isso e pior, ao fitá-la é protamente repreendido. A loucura da mãe é tamanha que a mesma, na busca pelo seu antigo emprego, se deita com o antigo chefe (Beto Benites) e o faz na vista de Júnior talvez como forma de fazê-lo mudar seu “jeito estranho” de ser.

Ao final Júnior se afirma como um ser nobre diante daquele mundo perverso, principalmente quando diz que seu papel é cuidar da mãe e do irmão mas, para sua mãe, nada disso adianta, ante o jeito amulherado de ser do menino.

Um belo filme, câmera bem posicionada, roteiro impecável, muito equilibrado e sem exageros ao mostrar a situação da Venezuela, ao tratar com proximidade o barbarismo das pessoas e aí destaca-se a atuação de Samantha Castillo, cuja frieza é muito convincente. Vale destacar mais uma vez a brilhante atuação de Júnior, do início ao fim quando lhe é imposto que para continuar com a mãe terá que tomar uma decisão muito traumática. Vá correndo assistir…

Direção e roteiro: Mariana Rondón

Produção: Venezuela, 2013
Duração: 95 minutos
Elenco: Beto Benites, Maria Emília Sulbarán, Nelly Ramos, Samantha Castillo, Samuel Lange Zambrano
 

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