Fui assistir Junho: o mês que abalou o Brasil, produzido pela Folha de São Paulo me perguntando: qual a motivação desse jornal ao lançar esse documentário no momento em que o país sedia a copa do mundo? (lembre-se que os protestos do ano passado ganharam combustível durante a copa das confederações!). Em outubro também teremos eleições para presidente, senadores e deputados, estes últimos alvo dos manifestantes.
Trata-se da exposição de imagens fortes dos protestos ocorridos em todo o Brasil contra o aumento das tarifas de ônibus, que logo em seguida se ampliaram diante da truculência policial. São imagens veiculadas, em demasia, nos noticiários das TVs e nas redes sociais. Não fosse a direção de João Weiner, um craque da fotografia e o depoimento de alguns intelectuais, o documentário seria uma peça inacabada e incapaz de ajudar a entender aquele momento.
Os depoimentos dos “cabeças pensantes”, de direita e esquerda, a maioria articulistas do próprio jornal e também de deputados e senadores , in loco, revela que há muito por desvendar. Com raras exceções, a perplexidade dá a tônica das análises, tantos dos intelectuais como dos políticos. Dentre os depoimentos destacam-se Contardo Caligares, Vladimir Sefatle, Luis Eduardo Soares e do Poeta Sergio Vaz que faz um humorado desabafo com lâmina cirúrgica, sobre o uso de balas de borracha pela polícia, nas manifestações nos centros das Cidades e do uso de .40 nas periferias. Outros como Boris Fausto, Marcos Nobre, Luiz Felipe Pondé, Clóvis Rossi, Gilberto Dimenstein, Jânio de Freitas, Mônica Bergamo e Demétrio Magnoli, jogam no lugar comum.
Marcos Nobre, aquele que escreveu em dez dias, ainda em junho, o livro Choque de democracia — Razões da revolta, funciona mais ou menos como âncora e sinaliza que o movimento abriu um ciclo de democratização do país e que naquele momento a sociedade tomou o poder do Estado. É o que dá escrever um livro em dez dias!
Demétrio Magnoli chega a dizer que para o MPL a questão urbana não tem interesse. Sobre esse aspecto, vale salientar a entrada, na semana passada, de militantes desse movimento ao PT. São pessoas preocupadas sim com a vida nas cidades, com as questões urbanas e com a forma como o grande capital tem se apropriado das cidades para reproduzir suas taxas de lucro. Esse ato mostra que o PT ainda é o único partido capaz de abrigar o movimento social e, com ele, aprofundar a jovem democracia brasileira
O direitista Luiz Felipe Pondé é incisivo em afirmar que a grande marca dos movimentos foi a ausência de formação política dos manifestantes. Ora, parece que a lupa destes caras estava opaca. A forma de atuação de determinados grupos deixou bem claro influencias de movimentos que aconteceram antes, ou, ao mesmo tempo, em diversas partes do mundo.
Há também depoimentos de jovens que participaram ativamente dos protesto, é o caso de Lucas Monteiro do MPT, Bruno Torturra, da Mídia Ninja, a militante Elena Judensnaider e da jornalista da Folha Giuliana Vallone, que recebeu um tiro de borracha no olho, disparado a poucos metros de distância por um franco atirador da polícia. Confesso que também esses depoimentos não ajudam a compreender o que aconteceu, seus motivos e raízes, alguns chegam até a ser inocente. Cumpade Washington diria: sabe de nada inocente!
O fato é que o movimento ganha robustez a partir da ação truculenta da polícia e se cristaliza no feroz ataque ao sistema político, a copa do mundo, a corrupção (PEC 37), ao transporte público, a educação, a saúde etc. Durante os protestos me perguntei: por que uma pauta tão dispersa não incluiu a taxação das grandes fortunas, prevista no Projeto de Lei do Senado n° 534? Isso seria suficiente para resolver um monte de problemas.
Não se pode negar o avanço do Brasil em anos recentes, inclusive na educação e saúde. O país cresceu, desenvolveu, mais de 40 milhões de brasileiros(as) ascenderam a classes superiores e, quando isso acontece, as pessoas melhoram de vida e vão querer mais oferta de bens e serviços públicos. Foi essa demanda que explodiu nas ruas. Uma grande lição que fica é a necessidade de uma reforma política imediata.
A incógnita continua. Tanto Junho, quanto “20 Centavos”, primeiro documentário a sobre o assunto, de Tiago Tambelli, não são suficientes para traduzir o significado do que aconteceu. Tambelli mostra imagens brutas, rodadas na rua no calor dos protestos, de forma não cronológica, inclusive antes de junho. Weiner já avança com depoimentos e imagens em ordem cronológica. Ambos cumprem o papel de estimular o surgimento de outros documentários que os complemente.
Por fim, vale a pena por alguns depoimentos, as imagens, mesmo que já vistas e, também, pela perplexidade de Sarney, o oportunismo de Datena e de Arnaldo Jabor. E, em relação a pergunta inicial, a folha não conseguirá o seu intento. Achar que o povo pode ser usado como massa de manobra nos dias atuais é, no mínimo, ingenuidade.
Título: Junho – o mês que abalou o Brasil (Brasil, 2014) / 71 minutos) Direção: João Wainer. Produção: Folha de São Paulo
