[Crítica] Hoje eu quero voltar sozinho

Hoje-Eu-Quero-Voltar-Sozinho-2(Por Ranieri Muricy Barreto)

O filme Hoje eu quero voltar sozinho é construído de modo muito singelo e cada jovem ator (são jovens mesmo) se entrega por inteiro ao seu personagem. Daniel Ribeiro é o diretor e roteirista e parece ter acertado a mão ao escolhê-los, vale salientar que o argumento é baseado no curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” de 2011 com os mesmos meninos (ainda sem completar a maioridade) vivendo a história que é desenvolvida nesse primeiro longa de Daniel.

O filme mostra a vida de estudantes adolescentes de classe média, com destaque para o deficiente visual Leonardo Leo (Ghilherme Lobo) e sua amiga inseparável Giovana – Gi (Tess Amorim) e o garoto Gabriel (Fábio Audi), por quem Leo se apaixona. O filme ganha contornos de excelência, especialmente pela atuação de Leo que parece, de fato, um cego desde que nasceu. A forma como descobre sua orientação sexual é apresentada em cenas sem exageros, paulatinamente, permitindo ao espectador perceber que ele utiliza todos os seus sentidos quando está com Gabriel, ou mesmo quando está longe mas, pensa nele.

Leo demonstra ter dimensão da sua condição mas não aceita ser tratado como incapaz. Com isso, ultrapassa o bullying, enfrenta os pais e abre seu caminho “olhando pra frente”, apesar da cegueira! Até na relação com Gi, sua eternal apixonada, mantém seu temperamento firme, gosta dela mas, não cede facilmente aos seus caprichos e, diga-se de passagem, enquanto o comportamento dela mostra insegurança típica de uma adolescente o de Leo segue noutra direção. Ela fica muito chateada quando ele a surpreende com a ideia de ir estudar em outro país e simplemente não conversou com ela sobre isso. Aliás, por esse motivo Leo briga fortemente com os pais, particularmente a sua mãe. Depois de refletir, o pai se mostra disposto a ouvi-lo e pondera: sair do país para fugir das brigas não parece a melhor alternativa mas, se você quer viajar pelos motivos certos…

Ao se sentar na sala de aula pela primeira vez e logo ao lado de Leo, o novato Gabriel lhe pede uma borracha com um toque ultra normal mas, para Leo, a senha de que algo diferente havia acontecido. Leo demonstra sentir algo especial e, ao longo do tempo, age como se fosse uma caso de amor a primeira vista (ou melhor, ao primeiro toque). Esse momento é percebido por Gi, que sempre sentava ao seu lado, ela mostra sua irritação e vai perdendo terreno nas pequenas tarefas que realizava para Leo, como por exemplo, acompanhá-lo até a porta de sua casa ao final da aula. A paixão entre os dois garotos vai acontecendo de forma muito tranquila, com as inseguranças típica de todo início de namoro adolescente.

Quando Leo está próximo de Gabriel os sentidos se afloram e tudo a sua volta o estimula. Sua sexualidade adolescente, cheia de hormônio, explode, a voz o estimula e um simples toque de pele o deixa atônito. Quando Gabriel esquece um capote em seu quarto, Leo não resiste ao cheiro, o agasalho então preenche os espaços vazios de seu corpo em mutaçåo e, não dá outra, inicia uma luta de cinco contra um.

Um filme delicado em que o personagem principal encarna diversas dificuldades e luta constantemente contra elas, cada momento vivido por ele parece ser escrito em um diário de tão precioso, tal a intensidade da vivência experimentada. Seu comportamento pode ser replicado para outras situações de muitos adolescentes em dificuldades que necessariamente não precisa ser a cegueira.

Por fim, tecnicamente o filme é muito simples, o som é bom, os diálogos são espassados. A trilha sonora vai da música clássica, paixão de Leo, passando por David Bowie, Belle & Sebastian e Marcelo Camelo. Não perca!

Título: Hoje eu quero voltar sozinho (Brasil, 2014) / 96 minutos
Direção: Danieri Ribeiro
Roteiro: Danieri Ribeiro
Elenco: Fabio Audi, Ghilherme Lobo, Tess Amorim e Selma Egrei

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