[Crítica] O Mordomo da Casa Branca

mordomo(Por Ranieri Muricy Barreto) O início do filme já mostra o pequeno Cecil Gaines (Forest Whitaker) trabalhando na plantação de algodão juntamente com os pais. Neste ambiente presencia espancamentos, mutilações e mortes promovidos pela supremacia branca em nome da construção Americana. Diante do estupro de sua mãe, lança um olhar fulminante para o pai cobrando-lhe alguma reação, este resiste com dignidade, mesmo sabendo qual seria o seu destino. Cecil presencia a morte do pai e vê sua mão enlouquercer. Carrega consigo a culpa por estes acontecimentos e talvez venha daí o seu comportamento servil ao longo do filme que é baseado em fatos reais.

Ainda na fazenda passa a viver como negro doméstico, aprende a entrar e sair dos ambientes sub-repticamente que quase não é notado, tornando-se invisível, artifício utilizado para “sobreviver no mundo dos brancos.” Foge da fazenda e trabalha em um pequeno restaurante, depois vai para um hotel luxuoso e, finalmente, chega a mordomo da Casa Branca. Lá serve, por mais de trinta anos, a vários presidentes, de Eisenhower (1953-61) até a eleição de Barak Obama (2009 – ), tornado-de muito íntimo deles.

Impossível não pensar no que aqueles olhos presenciaram em todos aqueles anos, decisões que sacudiram o mundo foram tomadas diante de sua invisibilidade. Presenciou, por exemplo, Johnson aprovar a Lei dos Direitos Civis (1964) e a Lei do Direito ao voto (1965) que ampliaram a cidadania aos afroamericanos. Combustível inegável para as formulações de Malcolm X: os negros deveriam participar das eleições votando naqueles que defendessem seus direitos, caso voltassem atrás, não restaria outra opção senão, a violência: “o voto ou a bala”!

Porém tamanha intimidade não foi suficiente para impedir que a submissão fosse presente em seu dia a dia. Sua vida é envolta em questões raciais, seu salário aviltado com grandes diferenciais em relação a outros trabalhadores da Casa Branca e promoção nem pensar.

Parecia viver feliz na Casa Branca, enquanto sua vida em família se deteriorava. A mulher (Oprah Winfrey) se envolve com bebidas diante de sua ausência e da falta de notícias do filho mais velho, (David Oyelowo), centro da trama, que segue para o Sul para lutar contra o racismo. O filho mais novo, vai defender o país no Vietnã para contrabalançar a luta de seu irmão mais velho “contra o país”. Resultado: servilidade na Casa Branca e desintegração familiar.

Enquanto “o mordomo” segue seu cotidiano domesticado para sustentar a família, seu filho mais velho passa a negar a condição de filho de mordomo da Casa Branca. Os choques entre pai e filho são constantes e este segue na luta pela liberdade e igualdade, juntando-se a um grupo de estudantes do sul do país que já desenvolvia luta aberta contra a segregação racial.

Jovem, sua espontaneidade revolucionária se revela em momentos de muita coragem como no enfrentamento direto ao aparato reacionário, ora do estado, ora de americanoides paranoicos, ou mesmo em situações de mera afirmação, como nas cenas em que critica o ator Sidney Poltier por não se afirmar como negro, e na cena em que sentam no lugar reservado aos brancos, o que poderia representar o desejo mais tênue de frequenter livremente uma doceria ou um bar.

Cenas de acontecimentos históricos são resgatadas, e podemos ver os cenas Passageiros da Liberdade, o ressurgimento da Ku Klux Klan após cinquenta anos no limbo, a morte de Kennedy em 1963, das lutas de Martin Luther King por emprego e liberdade (1963), a Guerra do Vietnã (1973), o Apartheid e os 30 anos de prisão de Mandela, o assassinato de Malcolm X e a formação do Partido Pantera Negra.

A luta do filho mais velho nem de perto se aproxima da visão do pai de que sua presença naquele lugar pudesse mudar a cabeça de presidentes racistas. O fato é que, para um, a vida sem liberdade não tinha significado, era importante a tomada do poder para por fim a injustiça econômica e racial e para reconectar os negros americanos com sua herança africana. Para outro, o mero fato de estar vivo com sua família bastava.

Um filme para ser visto e refletido para além dele mesmo, pois tem um forte componente histórico. Atores excelentes mas que não se mostram, talvez face a suas aparições meteóricas, como é o caso daqueles que interpretam os presidentes. Forest Whitaker e Oprah Winfrey cumprem apenas o papel de representar, embora algumas cenas tragam grandes emoções. Eu apenas destacaria o filho militante, David Oyelowo, para mim desconhecido, que tem uma bela história e não relatarei aqui porque vale a pena conferir na telona! Ele mostra uma qualidade interpretativa superior.

Título: O Mordomo da Casa Branca (EUA, 2013) / 132 minutos
Direção: 
Lee Daniels
Roteiro: 
Danny Strong
Elenco: 
Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Yaya Alafia, Cuba Gooding Jr., Lenny Kravitz, Elijah Kelley, Colman Domingo, Jim Gleason, Olivia Washington, John Cusack, Vanessa Redgrave, Terrence Howard, Alan Rickman, Jane Fonda, Robin Williams, James Marsden, Minka Kelly, Liev Schreiber, Nelsan Ellis
Esta entrada foi publicada em Cultura e Arte e marcada com a tag , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário