[Crítica] A menina que roubava livros

filme_-a-menina-que-roubava-livros-2(Por Ranieri Muricy Barreto)

O filme é uma adaptação do livro, de mesmo nome, de Markus Zusak, bastante lido no Brasil, que é ambientado entre o final dos anos 30 e início dos anos 40 do século passado. Na Alemanha nazista de Adolf Hitler, uma menina (Liesel, interpretada pela excelente Sophie Nélisse) de sombrancelhas grossas, que marcam seu rosto com muita beleza, protagoniza a história.

Retirada de sua mãe comunista, perseguida pelo regime, ela, e seu irmão que não sobrevive, é levada para morar com um casal Rosa (Emily Watson), uma mulher autoritária, pragmática, que vive com muito medo e Hans (Geoffrey Rush, sempre com uma atuação marcante), um homem nobre, puro, polido que logo cativa Liesel. Sob o olhar destes dois nada do que é humano lhes é indiferente, comportamento que contrasta fortemente com as práticas dos soldados do Terceiro Reich.

Apesar do sofrimento por onde passa, na escolar, na vida cotidiana, Liesel encontra um amigo/admirador Rudy (Nico Liersch) e convive com ele o tempo inteiro. Além disso, o convívio com o novo pai (padrasto), que a ensina a ler e, com um judeu Max (Ben Schnetzer), que escapa da Noite dos Cristais (1938), e que encontra abrigo na casa de seus pais adotivos ela desenvolve um grande sentimento de solidariedade.

A violência praticada pelo Terceiro Reich na noite dos Cristais, destruiu sinagogas, lojas e livros foram queimados sobre o pretexto de livrar a Alemanha da “sujeira intelectual”. Habitações foram invadidas em busca de judeus que eram presos e torturados. Poucos conseguiam escaper da fúria do exército nazista.

Já com o gosto desenvolvido pela leitura, Liesel é obrigada a queimar um livro e sua expressão, neste momento, parece mostrar que simbolicamente estava queimando tudo que aprendera até ali. Sem ter a dimensão do perigo, comportamento típico das crianças, corajosamente retorna, retira um livro da foqueira e leva-o para casa com a cumplicidade de Hans, apesar de sabedor dos riscos, pactua com a travessura perigosa. A partir daí, apaixonada por livros, age de todas as formas para conquistar um exemplar e começa a “tomar emprestados” livros depositados numa estante.

Aumenta seu vocabulário construindo, por sugestão de Hans, um dicionário, palavra por palavra, no subsolo da casa e parece vibrar quando Max cita Aristóteles: “a memória é o escriba da alma”. Diante da enfermidade do amigo Max, passa a ler compulsivamente para ele e isto o salva do quadro terminal em que se encontrava.

Imagens duras da segunda Guerra mundial são suavizadas pela relação entre Liesel e Rudy, dois jovens atores que atuam muito bem, como se vivessem suas próprias vidas. Isso fica explícito em várias cenas, e é mais acentuado quando Rudy se pinta de preto para mostrar que é tão bom quanto Jesse Owens, atleta negro norteamericano que ganha quatro medalhas de ouro nos jogos olímpicos de Berlim de 1936. Esta cena é muito forte, o racismo é uma construção hedionda, fiquei me perguntando, por que inocular essa maldade na cabeça de uma criança?

A Menina que Roubava Livros / 131 minutos
Alemanha / EUA – 2013)

Roteiro: Michael Petroni, baseado em livro de Markus Zusak

Direção: Brian Percival

Elenco: Geoffrey Rush, Emily Watson, Sophie Nélisse, Roger Allam

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