Antes de fazer esta leitura, leia neste blog a crítica ao volume 1 de Ninfomaníaca. Trata-se de uma única obra, dividida em duas partes e, por isso, é importante assistir as 4 horas de filme (duas de cada vez) para ter a visão do todo. Como na primeira parte, o drama se desenvolve a partir do quarto da casa de Seligman com relatos, em capítulos, da história de Joe desde a primeira infância. Mas agora a decoração do quarto e o ar professoral de Seligman já não são determinantes para as reflexões de Joe.
As digressões e metaforizações “do professor”, com recorrência à matemática, à religião e, às vezes literárias e didáticas, são críticadas por uma Joe, agora capaz de colocar o “homem dos livros” em constante perplexidade, dado que, em alguns momentos ele parece nem acertar na trave. Nesse volume 2, é Joe quem segura o fio condutor e, talvez esses momentos tenham sido determinantes para a descoberta do segredo de Seligmann (veja o filme para saber!) e também, para von Trier optar por aquele final.
Logo no começo, Joe (aqui representada por Stacy Martin), aparece como uma mulher casada, vivendo com seu companheiro Jerôme (Shia Labeouf) e o filho do casal. O sexo rola solto mas, logo o desencanto de ambos se aflora ante a não satisfação de Joe. Ele então propõe que ela busque a satisfação fora da relação e ela sai em busca de si mesma, ou, da “sua árvore”. A vida de casada, o amor por Jerôme, o filho pequeno não são suficientes para convencê-la a uma vida em família. O desejo exacerbado de Joe por sexo a faz deixar o filho pequeno sozinho em casa, numa cena de muita tensão e, também faz com que Jerome a abandone levando o pequeno Marcell.
Essa trajetória de Joe mostra uma pessoa sensível, apesar das duras experiências vividas. Uma pessoa que busca de toda forma conhecer seu corpo para sentir prazer e, para isso, se envolve em cenas de violência, opressão e dor que fazem do filme um espetáculo, pois a superação é muito bem construída.
Envolve-se com K (Jamie Bell), submetendo-se ao seu furor sadomasoquista, sendo, constantemente açoitada com instrumentos pensados por ele e comprados por ela própria. Entra em seu jogo violento, foge do mundo normal e enreda-se em sua busca. Procura um homem chamado L (Willen Dafoe), que afirma já conhecer suas habilidades, e este propõe que ela passe a exercer pressão sobre seus clientes devedores a fim de cobrar dívidas. Ninfomaníaca, exerce seu trabalho com maestria, chegando a arrancar a confissão de pedofilia de um dos clientes de L, depois, sentindo-se culpada, o recompensa!
Como desenvolve bem o trabalho, L lhe sugere observar P, ainda uma menina, mas que já tem histórico familiar capaz de lhe substituir no futuro, quando sua idade não mais permitir o ofício. Joe cuida de P desce criança e antes mesmo de lhe passar o trabalho se apaixona por ela. Diferente de Joe, P se apaixona por um cliente de L, velho conhecido de Joe, e mostra o quanto a vida já lhe ensinou.
Aparentemente decidida a mudar, Joe, protagoniza, dentre tantos, talvez o momento mais lindo do filme, quando se dirige a um grupo de ajuda, composto por mulheres “viciadas em sexo”, como elas mesmas se intitulam (algo parecido ao alcoólicos anônimos) e, ao invés de negar-se distila forte crítica à sociedade burguesa, dizendo: “amo minha boceta e minha luxúria suja e obscena”, numa atitude clara de reafirmação, de gosto por si mesma. Aliás, von Trier, como sempre introduz polêmica e brinca com temas que perpassam a questão racial (o politicamente correto) e a pedofilia.
Quando vi a parte 1 não criei grande expectativa em relação à segunda. Mas, podem assistir, von Trier assina a película! No conjunto é um filme extraordinário, brilhante e, ao mesmo tempo inquietante. Mostra uma mulher forte e, como o próprio filme coloca, fosse Joe um homem haveria todo esse estranhamento nessa busca sem limite?
Ninfomaníaca – volume 2 / 123 minutos Produção: Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha/Reino Unido – 2013 Roteiro: Lars von Trier Direção: Lars von Trier Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Willem Dafoe, Mia Goth, Michael Pas, Jamie Bell e Jean-Marc Barr
