(Por Ranieri Muricy Barreto)
Hoje (24/03) teve início o III Fórum do Pensamento Crítico, que vai até sexta-feira (28/03), com o grande tema: autoritarismo e democracia no Brasil e na Bahia 1964-2014 – 50 anos do Golpe de Estado de 1964 / 30 anos da campanha das Diretas Já. (informações em: http://www.fpc.ba.gov.br/forum/)
Na abertura, que contou com a presença do Governador Jaques Wagner, uma mesa composta por Waldir Pires, Clodomir Moraes, Juarez Guimarães e Eliana Rolemberg, todos oriundos, com muito orgulho, da resistência ao golpe, demonstraram o compromisso de fazer conhecer a história para não deixar acontecer nunca mais.
Todos os depoimentos causaram grande impacto no público, a homenagem a Marighella foi muito emocionante e, este escriba se emocionou triplamente: com as aulas dos palestrantes, a homenagem a Marighella e com o depoimento que dei sobre o período para Fundação Perseu Abramo. A Fundação está gravando com pessoas que tem alguma relação com aqueles anos de violência patrocinada pelo estado (o vídeo será exibido no seu site).
A reflexão sobre os 50 anos do golpe nos remete à responsabilidade de conhecer para não deixar acontecer nunca mais, nem no presente, nem no futuro. Digo isso porque vejo com muita tristeza jovens reproduzindo curtidas, ou mesmo postando apologias à volta dos anos de chumbo no facebook e outras espaços das redes sociais.
Já os 30 anos da campanha das Diretas Já devem ter comemorações escancaradas nos quatro cantos deste país. Esta campanha foi um exemplo de luta pela democracia no Brasil e tem que servir de fonte para o fortalecimento da jovem democracia que tem apenas 29 anos!
O golpe militar de 1964 interrompeu a tradição democrática porém, no início dos anos 80, uma enorme pressão popular exigia nas ruas a aprovação da emenda Dante de Oliveira cujo objetivo era reinstaurar as eleições diretas para presidente. Mas, no dia 25 de abril de 1984, a Câmara dos Deputados a rejeitou e a eleição para presidente, em 1985, foi novamente indireta.
Recordo-me do desencanto de milhares de jovens que estavam na rua, como eu, batendo panelas, com a palavra de ordem: Diretas Já! Lembro-me, muito triste que escrevi um pequeno poema e fui afogar as mágoas num bar:
Há vinte anos que o povo Tem no coração guardado O grito que seria dado No dia 25 de abril. Neste dia todo o Brasil teve cerceado De modo muito brutal O sonho que um dia sonhou. O sonho de ver libertado Todo o Brasil amado Do golpe que um dia levou.Mesmo assim, a oposição consegue emplacar por eleição indireta Tancredo Neves, ante uma base governista desarticulada, tendo como vice José Sarney (ele mesmo!) que, diante da morte inesperada de Tancredo, assume a presidência, iniciando o primeiro ciclo da nossa jovem democracia. Após Sarney vem Collor, Itamar, FHC duas vezes e por fim Lula, operário oriundo das lutas sindicais e anti-ditadura.
Este último responsável pelo segundo ciclo da nossa democracia, período no qual resgata-se a cidadia com a garantia de direitos sociais. Graças a isso, hoje já podemos comemorar, com todas as imperfeições, o maior período democrático contínuo de nossa história.
Ao escrever estas linhas lembrei-me da música “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória (Legião dos esquecidos)” de Gonzaguinha. Uma verdadeira homenagem àqueles que resistiram ao golpe militar de 1964, que não se acovardaram, que deram a vida na luta pelos direitos de homens e mulheres, de brasileiros e brasileiras. Desta música retirei o título desta postagem: “Memória de um tempo onde lutar / Por seu direito / É um defeito que mata”.

