(Por Ranieri Muricy Barreto)
A Grande Beleza certamente não foi a vida vivida pelo jornalista Jep Gambardella (Toni Servillo). Bon vivant, até certa idade, transitava por onde queria e tinha tudo ao seu alcance: lugares, cidades, pessoas, mulheres etc. A felicidade lhe era aparente. Com o tempo percebe que nada que viveu era orgânico e seu mundo fantasmagórico desaba.
O filme inicia com uma bela fotografia de Roma e um belíssimo canto gregoriano que faz lembrar o canto dos nossos monges do Mosteiro do São Bento. Logo aparece Jep e rouba a cena (bela atuação). A velhice lhe traz reflexões sobre sua trajetória de vida onde dinheiro, fama, mulheres e whisky caminharam juntos. Só aí percebe que vale mais a crueza da realidade, do que o eufemismo da vida mundana, que o levou a perder tempo fazendo coisas que não queria e, somente aos 65 anos isso lhe bate na mente.
Não escapa de Jep nem a filha do seu melhor amigo (Ramona) que ele encontra após um longo tempo separados. Mas, é a lembrança do primeiro amor que o leva a nocaute. Um amor reconhecido até pelo ex-marido que, diante da morte da esposa procura, Jep para contar que ela sempre o amou. Isso reforça sua caminhada reflexiva e já não sabe se é a velhice que é uma merda (como diria João Ubaldo) ou sua vida em si.
Viveu rodeado de pessoas cujo reconhecimento se dava pela posse, pela roupa, ou pela aparência, como no caso da mulher que vai ao agiota tomar um empréstimo para cortar o cabelo. Que grande beleza! Jep não tinha mais tempo para tecer uma teia como Penélope ao esperar por Ulisses. Ao contrário dela, o que tecia durante a noite era impossível ser desfeito de dia. O tempo passou.
A reflexão de Jep mostra que em seu universo a beleza da vida se esvai no vazio de uma burguesia decadente, financeira e moralmente. E diante de imposição de verdades, falsas celebridades (cheias de botox) e muitos sanguessugas seus sonhos se perdem .
Um belo filme, vale muito ser visto pela fotografia, roteiro, direção, pelas obras de arte que aprecem, pelos peitos nus, pela atuação de Toni Servillo. Além disso, pela reflexão em torno da beleza e frugalidade da vida, do envelhecimento, do tempo…
A Grande Beleza (La grande bellezza) / 142 minutos Itália / França – 2013 Direção: Paolo Sorrentino Roteiro: Paolo Sorrentino, Umberto Contarello Elenco: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte, Pamela Villoresi, Galatea Ranzi, Franco Graziosi, Giorgio Pasotti, Giorgio Pasotti, Massimo Popolizio, Sonia Gessner, Anna Della Rosa, Luca Marinelli, Serena Grandi, Ivan Franek
