Por Ranieri Muricy Barreto /
Que grata surpresa tive ao assistir esse filme com Maria (minha filha, 06 anos). Pelo cartaz vi o desenho aparentemente ingênuo de um menino, tal qual a aquarela de Toquinho, que ela tanto gosta (corro um lapis em da mão e me dou uma luva; e se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva…). O Menino, personagem principal, parece o desenho feito por uma criança que está começando a desenhar, com a diferença que os braços não saem da cabeça.
Sem falas, com rabiscos simples, a história se desenrola mostrando quão profunda é esta segunda animação de Alê Abreu. Com simples rabiscos o desenho animado mostra as contradições imanentes do capitalismo moderno, o desemprego estrutural, as jornadas de trabalho excessiva, a estandardização do trabalho e da produção. Nada escapa, a exploração capitalista, a substituição de homens por máquinas, o lixo, a ofensiva militar (propício registro num ano em que o golpe militar faz 50 anos)…. Tudo é retratado de modo a misturar o sonho (a tudo isso me remeteu ao tempo em que me debruçava cotidianamente sobre a Economia do Trabalho.
A história mostra um pai que ‘cai no mundo’ em busca de melhores condições de vida para um dia voltar, ou mesmo levar a família do campo para a cidade. Diante da falta do pai, que deixara a família em uma grande locomotiva que mais parece uma grande sucuri, o Menino passa a seguir pistas do seu universo infantil (notas musicais da falta tocada pelo pai, que cena linda!).
Nesta busca se depara com um mundo em progresso acelerado, toda a cadeia textil simbolizando a moderna produção capitalista. Seu caminhar solitário ganha a companhia de um pequeno cão e um velho catador de lixo, doente, que é explorado em trabalho penoso e logo despedido. O progresso vem de máquinas em movimentos repetitivos e rápidos, em verdadeiro moto-contínuo, e homens tristes sem esperanças. Diria que se trata de um filme triste, talvez por isso, Maria tenha me perguntado no meio da trama se eu estava chorando!
Em companhia dos amigos, o Menino descobre as cores e as formas de um caleidoscópio mas, logo em seguida esse sonho é esmagado por um container que cai em cima do pequeno brinquedo! (impossível não lembrar do container de 29 toneladas que caiu no porto de Salvador e matou um operário).
De repente um colorido chama a atenção de Maria (- por que eles estão fazendo isso?, perguntou!). Imagem real de derrubada de árvores, homens abatendo a floresta, como diria Vital Farias “veio caipora de for a para a mata definhar…”. Esta cena se confunde com imagens simultâneas da cadeia produtiva, vão do pasto às vitrines e expõem as camisas e vestidos. Muito dinheiro vai ilustrando o que está por trás dessa movimentação. As desigualdades são mostradas com sua crueza.
Este filme se situa num patamar infinitamente distante de muitos que são produzidos atualmente e que passam longe de qualquer preocupação com o social, seja para adulto ou para criança, como é o caso. Soma ainda a favor a trilha sonora de protesto comandada pelo extraordinário percussionista Naná Vasconcellos e o rapper Emicida.
Não sei se as crianças alcançarão toda a ambientação proposta mas, os pais não têm o direito de privá-las da possibilidade de refletir conjuntamente (adultos e crianças) sobre um mundo muito real, tracejado em um desenho animado complexo e replete de conteúdo. Ao final Maria me disse que gostou mas só entendeu o começo! Vale mjuito a pena.
O Menino e o mundo / 80 min
Brasil – 2013
Direção e Roteiro: Alê Abreu

