Ranieri Muricy Barreto – Mestre em Economia, Assessor Chefe do Gabinete do Governador
O atual sistema de federalismo do Brasil é predatório. Foi com esta colocação que o ex-ministro Nelson Jobim entregou, em 30/10/12, o relatório da comissão de especialistas, a qual presidiu, criada no Senado Federal para discutir e apresentar sugestões para um novo pacto federativo, questão que agita o cenário político brasileiro posto que interessa diretamente a estados e municípios.
Debates importantes relacionados às questões fiscais estão sendo travados no Congresso Nacional e necessariamente respingam nas relações entre os entes federativos, nos seus orçamentos e, por conseguinte, nas suas capacidades de atuação para promoção do desenvolvimento regional.
A experiência brasileira evidencia que a organização do Estado em uma Federação apresenta períodos de instabilidade e de tensionamento nas relações entre seus entes, sobretudo quando envolve discussões relacionadas às questões fiscais. A concentração de poderes orçamentário-financeiro por parte da União, a “guerra fiscal”, conflito na administração da arrecadação e a necessidade premente de uma reforma tributária têm intensificado o debate com vistas a recomposição do federalismo fiscal brasileiro, de modo a torná-lo mais equânime e, portanto, capaz de evitar disputas e desgastes nas relações federativas.
O Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucionais os critérios atuais de rateio do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e limitou os seus efeitos até o final deste ano. Esta também é uma questão em pauta e que precisa ser solucionada, pois o FPE é uma importante fonte de recursos para os estados mais pobres e se constitui como um instrumento de equalização da capacidade fiscal das unidades federativas. Em 2011, os recursos do FPE para a Bahia foram da monta de R$ 5,6 bilhões, representando 29% da sua receita corrente líquida. Isto evidencia que os novos critérios a serem consensuados devem privilegiar os estados com maiores carências de recursos, contribuindo para a redução das disparidades regionais.
Outro tema relevante é a possibilidade de renegociação das dívidas dos estados com a União, uma vez que os contratos vigentes representam um desafino com a realidade atual de redução das taxas de juros. A renegociação das dívidas significaria uma melhora da situação orçamentária dos estados e a ampliação de seus espectros de intervenção. Para a Bahia, a aprovação da proposta que considera a redução da taxa de juros de 6% para 2% ao ano e a substituição do indexador contratual do IGP-DI pelo IPCA representaria um ganho de R$ 3 bilhões.
Questão fiscal importante, já equacionada, foi a uniformização das alíquotas do ICMS para produtos importados que acabou com a predatória guerra dos portos. Entretanto, a definição dos critérios de repartição dos royalties do petróleo e da mineração e a proposta de emenda à Constituição que modifica a sistemática de cobrança do ICMS do comércio eletrônico são temas igualmente relevantes que devem, nos próximos meses, ir a Plenário, na Câmara e no Senado Federal, respectivamente.
O Governo da Bahia está atento para garantir os interesses do Estado, sem prejuízo à relação harmoniosa com outras unidades da Federação, participando ativamente das discussões no Conselho Nacional de Política Fazendária e acompanhando de perto os trabalhos no Congresso. É fundamental assegurar e ampliar disponibilidade dos recursos financeiros para a Bahia, um dos estados brasileiros com menor orçamento per capita.
A recomposição do federalismo fiscal brasileiro é necessária para aumentar a capacidade de intervenção dos estados e municípios, sobretudo nas áreas de educação, saúde e infraestrutura. Sem isso, tornam-se onerosas e legalmente inviáveis “aventuras fiscais” que resultem em novas obrigações para os estados e municípios. Portanto, é preciso prevalecer o bom senso e o diálogo, característicos da boa política, para a consolidação de um novo pacto federativo, mais equânime e capaz de reponderar os recursos, de modo a potencializar o desenvolvimento da Bahia, em particular, e do Brasil, no geral.
Publicado Jornal A Tarde, 02 12 2012, pág. A3

