Ranieri Muricy Barreto – Economista e Assessor Chefe do Gabinete do Governador
Dois períodos da história econômica recente do Brasil se destacam no que diz respeito às taxas de crescimento do PIB, aumento dos investimentos e expansão do mercado interno, tendo o Estado como protagonista deste processo, quais sejam: o milagre econômico e os oitos anos de prosperidade do governo Lula. São períodos que evidenciam empiricamente a diferença de dois importantes conceitos utilizados em economia: crescimento econômico e desenvolvimento.
O milagre econômico foi caracterizado por um período de retomada do crescimento da produção por meio da adoção de políticas monetária e fiscal expansivas que se traduziram no fortalecimento da base produtiva e da infraestrutura de transporte, energética e de habitação, bem como no expressivo crescimento PIB, em média 11% ao ano. Em que pese estes avanços, o milagre propiciou uma forte concentração econômica, onde o processo de acumulação do capital foi determinado pelos grandes empreendimentos, que reforçaram as desigualdades regionais e sociais historicamente existentes.
Conceitualmente o milagre foi um período de crescimento econômico estrito, dada a dissociação da pujança econômica com a distribuição de renda e os avanços na área social. A idéia linear do transbordamento automático dos êxitos da economia para a esfera social, conhecida pelo bordão “crescer para depois repartir”, a famosa “Teoria do Bolo”, mostrou-se incoerente e insustentável. Ademais, nesta época, tem início um expressivo aumento da dívida externa bruta(crescimento de mais de 1.500% de 1968 a 1980), com repercussões negativas para a década de 1980 (década perdida), comprometendo gerações futuras.
Diferentemente, nos oito anos de prosperidade do governo Lula, optou-se pelo crescimento com controle da inflação, responsabilidade fiscal e, sobretudo, redução da pobreza e desigualdades.
Colocou-se no centro da agenda a questão social, por acreditar que os investimentos nesta área e a melhoria da equidade são condições necessárias para que o crescimento econômico possa ter bases firmes para se alcançar um novo patamar: o de desenvolvimento. Assim, sepultou-se a idéia de que o Brasil era uma “Belíndia”, uma “espécie híbrida” com características da Bélgica, local de riqueza, e da Índia, simbolizando a miséria, a pobreza e a diferença entre ricos e pobres.
Os investimentos do PAC, a elevação das taxas de emprego, o aumento real do salário mínimo e as políticas de transferência de renda com ampliação do acesso às políticas públicas serviram de catalisador para a redução das desigualdades e para o resgate da cidadania plena: direitos à vida com liberdade e igualdade, enfim, direitos civis, políticos e sociais. O Brasil tornou-se credor internacional, emprestando inclusive ao FMI, num cenário de crise mundial e apresentou média de crescimento do PIB muito superiores às últimas duas décadas.
Distante da ditadura e consolidando sua jovem democracia, o país assistiu ao período de prosperidade do governo Lula com entusiasmo, traduzido na expressiva taxa de aprovação de 80%. A aglutinação de uma maioria política em torno do novo modelo permitiu a aprovação de projetos relevantes, a retomada do planejamento de longo prazo, o controle social, bem como, o fortalecimento das pequenas economias e dos circuitos inferiores do capital, conforme conceituado por Milton Santos. Ao mesmo tempo, observou-se uma maior transparência na gestão pública, fundamental para a consolidação do Estado Democrático de Direito.
Por fim, os oitos anos de prosperidade do governo Lula se caracteriza, conceitualmente, como um período de desenvolvimento, uma vez que registrou além do crescimento econômico, melhoria dos indicadores sociais, aumento da produtividade e amadurecimento institucional.
Também se obteve avanços na direção a uma sociedade do conhecimento, com a expansão da rede de ensino pública universitária e a ampliação dos dispêndios nacionais em P&D, em relação ao PIB, e um maior esforço no sentido de uma transição para uma economia de baixo carbono e de sustentabilidade ambiental.
Publicado no Jornal A Tarde em 03.01.2012
