para o A Tarde
A crise passou! É a dedução óbvia depois de uma circulada superficial pelos principais meios
de comunicação. As estatísticas, se não nos permitem afirmar categoricamente o fim da crise, apontam para o início de uma recuperação. A alternância entre períodos de expansão e crise é a tônica do capitalismo.
Se a crise começou pelo centro do capitalismo global, é por lá que ela se encerrará: os dados mais recentes divulgados pela OCDE, para junho de 2009, apontam fortes sinais de recuperação econômica na França e na Itália, e sinais claros de início de retomada do crescimento na Alemanha, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos.
Na China, Índia e Brasil, os números mostram que o retorno ao patamar pré-crise se dará mais rapidamente. No Brasil, o PIB do 2º trimestre de 2009 voltou a apresentar crescimento positivo (1,9%), depois de dois trimestres consecutivos de retração. A produção industrial apresentou sete meses consecutivos de expansão em 2009. As vendas do comércio varejista nacional registraram crescimento de 3,7% no 1º trimestre de 2009 e expansão de 5,2% no 2º trimestre de 2009, atestando que o setor foi muito pouco afetado pela crise global.
O mercado de trabalho nacional também seguiu tendência positiva. Os empregos formais gerados (CAGED) nos sete primeiros meses de 2009 foram 437.908. Desde fevereiro, os saldos registrados voltaram a ser positivos. A taxa de desocupação (IBGE) apresenta trajetória de queda desde abril de 2009, com um patamar ainda inferior ao verificado em 2008. A massa salarial nas principais regiões metropolitanas, que manteve, em 2008, trajetória de expansão, apresentou, em 2009, ligeira redução, porém, mantendo um patamar superior ao ano anterior.
Portanto, a crise passou? Se entendermos a crise como a paralisação temporária da tendência imanente ao crescimento de uma economia capitalista, a resposta é sim. Nessa economia, os capitalistas direcionam suas ações para produzir o máximo possível de lucro, e fazem isso comprando insumos e máquinas e assalariando pessoas, a taxas decrescentes, para produzir mercadorias, cada vez em maiores quantidades.
O resultado dessa compulsão ao crescimento foi um desenvolvimento sem precedentes das
forças produtivas. Porém, essa pujança esbarra em uma encruzilhada: para pôr o lucro no bolso, os capitalistas precisam vender as mercadorias, e, uma vez que a expansão do consumo não acompanha o crescimento da produção, não há garantias automáticas de ajustamento do mercado, tal como foi preconizado por Adam Smith, que acreditava na mão invisível como instrumento último de harmonização dos interesses econômicos.
A formação de um excesso de capital (seja na forma de mercadorias ou de dinheiro) é uma expressão estrutural do funcionamento do capitalismo, a qual se manifesta em sucessivas conjunturas expansivas e recessivas. A alternância entre fases de euforia e de depressão, tal como num transtorno bipolar, é uma condição normal do capitalismo. Esses ciclos permitem o ajuste (o equilíbrio) entre, como dizem os economistas, a oferta e a demanda agregadas.
Contudo, assim como a mera administração de carbonato de lítio não elimina o conflito existencial do bipolar, as políticas anticíclicas são incapazes de eliminar as crises do funcionamento do capitalismo. O capitalismo, sem promover a destruição da massa de capital excedente através das crises, não conseguiria recolocar as condições para a retomada da acumulação de capital: queda dos preços de insumos e bens intermediários, elevação do desemprego, incorporação de firmas menos eficientes por firmas mais produtivas.
A ciência econômica hegemônica preocupa-se exclusivamente com o custo econômico da política anticíclica: o tamanho do pacote fiscal dos Estados Unidos e o impacto das desonerações tributárias na arrecadação do governo federal brasileiro, por exemplo. Por que não se observam preocupações em “estimar”, com modelos econométricos, a virulência da angústia daqueles que perderam seus empregos no auge da crise (só nos EUA, entre dezembro de 2007 e julho de 2009, 6,7 milhões de empregos foram destruídos)? Por que não se calcula a variação percentual do stress e a emulação no ambiente de trabalho para aqueles que continuaram empregados numa conjuntura em que o exército de pretendentes a um posto aumentavam em progressão geométrica do lado de fora das firmas (também nos EUA, entre julho de 2007 e julho de 2009, a taxa de desemprego dobrou: era de 4,7% e passou para 9,4%)?
Prometeu, o Titã da mitologia grega, roubou de Zeus o fogo para entregá-lo aos homens. Pagou um preço alto demais pela ousadia: foi acorrentado a uma rocha para ter seu fígado cotidianamente comido por uma águia. Sucede-se com o capitalismo e nós, o povo, a mesma
coisa. O capitalismo nos libertou de várias limitações naturais e necessidades primitivas, mas nos acorrentou em um processo no qual deixamos de ser protagonistas. As decisões mais importantes da reprodução social (o que produzir, como produzir e para quem produzir) são tomadas por uma parcela cada vez mais evanescente da população global. Recolocar nossas mãos na liberdade de construir nosso “destino”: essa é a única lição que aprendemos com as crises e que não merece ser esquecida.
Antônio de Pádua, Ranieri Barreto e Roberto Conceição
Publicado Jornal A Tarde, 13/09/2009, pág. B3.
